sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Disfarce de vida





Liberta-te, escravo involuntário da vida levada a sério
Pois mesmo sem saberes
O tempo da opressão também é feito por ti.

Entrega-te com afinco à dissimulação
E finge não sentires essa dor que te apaga
Sem hipocrisia aprende o prazer da existência fácil
Sem pensar, sem exigir, sem querer
E disfarça o teu sofrimento com risadas
Ocultando as lágrimas ensanguentadas do teu querer.

Não te anules, mas vive como se fosses outro
Encobre a tua ira com gestos doces
Não lamentes o que não tens
E elogia o que possuis
Porque esse teu dom... não vais permitir que to roubem
Pois mesmo sendo outro
Não deixas de ser tu
Tens o teu mundo interior
O teu desejo e a tua força
O teu conhecimento e o teu invento.

És agora um homem livre
Com a luz no lugar do esquecimento
Com a alegria no lugar da tristeza
Erguido, firme, hirto
Determinado mas impotente
Perante o castigo exigido e imposto.

Ri da tua dor. Acende as luzes da tua ribalta
Acena com bravura aos demais, ignorantes
Sorve com avidez o ar que neste momento te envolve.

E, num gesto mudo, continua a gritar para ti:
Sou livre neste Mundo!

sábado, 14 de agosto de 2010

Fala-me



Fala-me do teu sonho
Daquele que foi por ti mutilado
Conta-me como o sonhaste
Como ele era antes desse acto acabado.

Refere-me se era sobre Paz, Amor ou Ódio
Sobre Dinheiro ou Poder
Ou se era simplesmente
A tua imaginação a crescer.

Diz-me quem to roubou
Explica-me porque assim ficou
Verbaliza porque não se realizou
Comunica-me porque acabou.

Deixaste de nele acreditar
Ou simplesmente o quiseste matar
E desististe, por ser ambicioso
E demasiado difícil de alcançar?

Assim, quando eu souber dele
Talvez te possa ajudar
A um novo sonho reconstruir,
A um novo sonho sonhar.

E se eu um dia o conhecer
Quem sabe se eu não te posso contar
Como fingir viver um sonho
Um sonho sempre por realizar?

Porque viver em Paz é ainda possível
Mesmo não vivendo a tal vida, porque inatingível
Pois a imaginação pode ser fértil
Mas o desejo inútil.

Fala-me do teu sonho!

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Limpezas



Estou a aproveitar o Verão para fazer limpezas, para deitar fora todo o lixo que, indevidamente, guardei até agora. Não me refiro à simples limpeza da casa, actividade essa tão fácil e desprovida de verdadeiro empenho.

Refiro-me, isso sim, à minha limpeza interior, à limpeza da minha memória já que nela guardo lembranças que são puro lixo, de outras tantas pessoas que não passam disso mesmo!

Para quê ocupar espaço dentro de mim com informações obsoletas, memórias dolentes e tristes de quem nunca valeu esse privilégio?
Elas são autênticos resíduos tóxicos que se disseminam por todo o meu ser, correndo pelas veias e saindo, a custo, pela pele em jeito de hematomas.

Estou a abrir as janelas da minha alma, a arejar o sótão da minha lembrança e a sacudir todo o pó, todas as teias de aranha, a desfazer-me de todo o lixo guardado ao longo de décadas!
Esfrego com determinação e detergente feito de indiferença todas as nódoas negras deixadas no halo do meu ser. Obtenho assim, certamente, espaço livre, limpo e liberto para verdadeiras, belas e valiosas aprendizagens, que sejam plenas de energia.

É que todo o processo de arrecadar lixo ao longo dos anos, tem-me desgastado, conspurcado e sugado as energias positivas que possuía, a alegria e os sonhos.

Chegou a altura de colocar um ponto final a essa minha atitude pouco inteligente de deixar entrar na minha vida gente perdida que me faz perder tempo, que me rouba sentimentos e vontade e que como recompensa, me deixa cheia de detritos emocionais sem nada de bom me ter ensinado.


Basta! É tempo de limpeza! Não quero mais tristeza nem bossas de herança! Não quero sentimentos nem sensações inventadas... quero uma vida limpa de falsidade, perfumada de amor e verdadeira nos sentimentos e sentires... sem sedimentos de dor.

O sótão da minha memória estará imaculado, prometo-me que sim, dentro em breve; a minha vida, essa, segue em frente sem necessidade de ser povoada por duendes feios, falsos e feitos de mentira.
A solidão é, afinal, a melhor de todas as conselheiras, talvez de todas as purgas e limpezas.

Vou continuar a aproveitar o Verão!

sábado, 31 de julho de 2010

Conselhos de vida I






Vive

Vive cada momento da tua vida como se esta fosse acabar no momento seguinte;

Grita quando precisares e sempre que te apetecer
Aprecia o que te dá prazer mesmo que este seja pequeno;

Observa o mar, as ondas e as dunas
Imerge nas águas, sustendo a respiração para poderes entrar num outro mundo
Mergulha o olhar nas falésias perigosas e inclinadas;

Arrisca um olhar indiscreto e ousado sobre uma janela fechada
Saboreia a brisa fresca no teu rosto
Quando o teu corpo arde em desespero;

Sobe alto às montanhas, mesmo que habites uma planície
Escalando as encostas com murmúrios surdos
Tropeçando no cascalho solto e movediço,
Mas sobe;

Bebe o verde das árvores
Ouve os seus sussurros, as suas preces
E entrega-te no colo dos seus ramos;

Deixa que o sol te queime a pele, te fustigue, te castigue
Porque amanhã vais ainda lembrar que o sentiste
E ele ficará impregnado em ti, porque existiu;

Experimenta o frio da neve nas tuas mãos, fazendo bolas de esperança
E constrói com os seus flocos, exércitos de bonecos, guerreiros de ti, imaginários;

Lambe em silêncio as lágrimas que te rolarem pelo rosto
Ou deixa-as brotar com estrondo
Porque elas, são sinónimo da tua tristeza mas também da tua existência;

Absorve o doce do mel que inconsciente, caiu na tua boca
Mesmo que a amargura do instante to não deixe saborear;

Ri, ri muito do que te dá vontade
Graceja com o caricato do teu comportamento
Ou com os teus actos desajeitados, mas ri!

Trapaceia o destino que te impõe modelos
Troca-lhe as voltas e os anseios
E de bom humor, segue de cabeça erguida
Porque essa, é a tua melhor arma;

Ama apenas quem te ama e quem te merece
Fica perto dos teus amigos, dos que te sabem
E desouve os comentários alheios
De quem não te compreende,
De quem é desimportante e nunca saberá quem tu és;

Diz tudo o que te vai na alma, no ser, na cabeça, na garganta
Porque o silêncio é vil, destrói, mata;

Ouve os teus gritos, os teus risos
As gargalhadas das crianças
O som do mar a rebentar na areia
Ouve o bater do teu coração,
A mais bela melodia ou a cacofonia que melhor te aprouver,
Mas ouve;

Sê honesto e verdadeiro para te poderes defender
Porque a mentira é traiçoeira e de vida breve;

Vive, arrisca, mesmo com moderação, mas vive
Porque hoje sabes que estás aqui e és tu
E o amanhã pode não te acontecer!

Vive, mas vive com esplendor
Marcando a tua diferença
Deixando o teu rasto, o teu legado
Porque só assim completarás a tua passagem.

Vive!

segunda-feira, 12 de julho de 2010

É pena


É pena as palavras usadas nas promessas não terem sido cumpridas
É pena ser mal-amada, apenas usada... não ouvida nem sentida.
É pena as vontades prometidas serem para sempre adiadas...
É pena as intenções de desejos não terem sido nunca realizadas.

É pena até os falhados, os perdidos, os derrotados, quererem ser ousados
Saberem fazer exigências, serem pouco equilibrados
E mesmo mascarados, não passarem de tristes, coitados!
É pena que haja caminhos cruzados, trocados, errados.
É pena que fiquem mais nódoas manchadas nas histórias vividas
Repetidas à força, e agora encerradas.

Restam apenas as angústias recolhidas, escondidas... contidas.
Resta apenas o que existe sempre: todas as vis certezas doídas.

Mas é pena que as veredas, as estradas da vida, continuem a ser mal escolhidas
E que as viagens encetadas sejam longas, porque sofridas,
Sinuosas, porque mal sucedidas,
Efémeras, porque enganosas,
Tristes, porque falazes.

E com tantas penas que restam
Quero apenas fazer um belo pássaro
Branco, porque de Paz e livre, porque de Solidão
E ser eu a voar esse pássaro migrando para longe...
Para longe de mim.

Acabaram-se as penas! Sou como ela!!