terça-feira, 13 de abril de 2010

Visitas não convidadas


Ela veio de novo visitar-me e provavelmente vai querer habitar-me temporariamente. Só que eu não a convidei... pelo menos voluntaria e conscientemente.

Achamos que somos uma pessoa, mas aos olhos dos outros somos alguém diferente. Desejamos ser de determinada forma, mas somos de outra apenas porque não conseguimos ser essa "tal" pessoa ou pura e simplesmente porque não nos deixam.
E é também por isso, talvez, que ela me visita.

E vem o calor excessivo, ofertando suores, seguido de um frio de rachar, que faz tremer o queixo. Uma escuridão de breu de meter medo, seguida de um sol resplandecente que fere a vista. Um peso inexplicável às costas e simultaneamente sentir asas para voar.

Mais o medo. O querer e o não conseguir. E decididamente sei que o que incomoda não é o receio do desconhecido, do que pode vir a seguir. Isso não, pois quase tudo o que era desconhecido e podia acontecer, já aconteceu.

Mas ele está comigo. Olho para trás e pouco mais consigo do que o que ficou por fazer, por alcançar, por atingir. Poderia e deveria ver o que foi feito... mas é tão pouco importante e desinteressante, que passa despercebido no meio de tudo o resto.
E são também as lágrimas salgadas, seguidas de gargalhadas estridentes, descontroladas e patéticas. A alegria e o bem-estar que são rapidamente engolidos por ela... teimosa, ganhadora, valente!

É tudo isso ao mesmo tempo colocado no misturador gigante e desmesurado em que a minha cabeça se tornou.

É o estar definitivamente deslocada em qualquer que seja o lugar, é o sentir que estou a mais ou que não pertenço a lado nenhum, que deixei de ter raízes e referências ou que, pura e simplesmente, nunca as tive.

Mesclam-se, atropelam-se as ideias e os sentires... só sei a dor. Já nem sei as palavras. Apenas os sentimentos, também eles destemperados, inqueridos.

Vou-me embora. Parto. Quero fugir de mim. Começo a fugir de mim própria. Viro-me as costas, mas persigo-me. Estranha forma esta¸ de ser, de estar, de amar. Era tão mais fácil ser outra pessoa! Como ser quem não sou?

São as lágrimas que vencem o riso. Tremo de novo.
Já não sei bem o que sou o que me tornei... no que me tornaram. Mas sei apenas e ainda o que quero, o que preciso, mas não quero admitir... digo apenas baixinho porque a fraqueza pode vencer-me também.

Fica o vazio.
Fica o que não tenho.
Fica-me a companhia da minha visita.
Por quanto tempo irá ela ficar comigo?
"Pensamento positivo. Não a deixes ficar. Não lhe dês guarida!" oiço sussurrar bem baixinho no fundo de mim...

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Pára de procurar-me

"Pára de procurar-me nos altares, nas rezas e nas procissões. Eu estou aqui. Eu já não sou aquele que adoras, aquela imagem fúnebre. Estou vivo, e estou aqui. Estou aqui em energia, numa nova dimensão.
Numa dimensão que vais ter de explorar, vais ter de desbravar, se quiseres estar comigo. Se quiseres realmente estar comigo. Eu já não estou nessa dimensão há muito tempo. Eu já não estou aí. Pelo menos este Eu que quero que conheças. Este Eu, mais inteiro, mais intemporal. Este Eu mais vibrante, energético e intenso. Este Eu de luz.
Pára de me procurar fora. Eu estou aqui. Bem aqui. Bem dentro de ti. E sempre que olhares para dentro, vais ver-me. E vais perceber que eu já não estou nos quadros com moldura antiga, ou nas catedrais.
Estou aqui dentro de ti a fazer parte da energia e a ajudar a encontrares-te e a sentires, a sentires profundamente quem realmente és."
Alexandra Solnado



quarta-feira, 7 de abril de 2010

terça-feira, 6 de abril de 2010

Espera por mim


Espera por mim.
Deixa-me estar e crescer contigo.
Leva-me ao teu lado, de mão dada, brincando nas estradas da tua vida.
Quero ver-te correr e jogar à bola contigo.
Quero acompanhar-te em cada queda, de cada vez que arranhares os joelhos, de cada vez que rasgares as calças.
Quero rebolar contigo na relva, construir castelos na areia da praia, afogar-me contigo nas ondas da imaginação.
Quero perder-me no brilho dos teus olhos, afogar-me nas tuas lágrimas e abraçar os teus sorrisos.

Guarda-me com amor na tua caixinha e procura-me sempre que quiseres, sempre que te apetecer ou sempre que precisares porque, de qualquer forma, mesmo que não saibas, mesmo que não te lembres, mesmo que não me vejas, mesmo que não te apeteça, eu vou estar contigo a zelar por ti, a dar-te o meu apoio e o meu amor incondicional, assistindo à beleza única do teu crescimento.

Deixa-me rir e chorar contigo, gritar alto as tuas alegrias ou reclamar por causa das tuas tristezas... pelas injustiças do mundo.
Ou deixa-me apenas estar, sem nada fazer, sem nada dizer, sem nada julgar... apenas estar contigo e ver o brilho do teu olhar, ouvir a pureza das tuas gargalhadas, deliciar-me com a suavidade do teu sorriso porque eu... eu existo para isso... porque eu... eu sou apenas a tua "granny".
Espera por mim! Deixa-me estar contigo!

quarta-feira, 24 de março de 2010

Mesmo que não queiras...


Mesmo que não queiras
Vais lembrar-te de mim
Em cada beijo não dado
Em cada carinho não recebido
Em cada gargalhada não ouvida.
Mesmo que não queiras
Vais lembrar-te de mim.

Vais lembrar-te de mim
Em cada lugar que passares
A cada esquina que cruzares
A cada perfume que sentires
A cada som que ouvires.
Mesmo que não queiras
Vais lembrar-te de mim.

Vais lembrar-te de mim
Mesmo depois das provas destruídas
Mesmo depois das cartas rasgadas
mesmo depois das ofertas devolvidas
Vais lembrar-te de mim.

Mesmo que não queiras
Vais lembrar-te de mim
Por cada mentira que disseres
Por cada inverdade que pensares
Por cada traição que fizeres
Vais lembrar-te de mim.

Vais lembrar-te de mim
A cada beijo que roubares
A cada mulher que seduzires
A cada carícia que fizeres.
Mesmo que não queiras
Vais lembrar-te de mim.

E quando o tempo levar para longe
Todas as marcas que o amor deixou
Virá o arrependimento
Porque sem mim, ficou-te o vazio
Cada dia se tornou mais longo e frio.
E mesmo que não queiras
Vais lembrar-te de mim.

Mesmo que não queiras
Vais lembrar-te de mim
Porque eu estive em ti
E esse foi o legado que te deixei
Mesmo que não queiras
Vais lembrar-te de mim.
Vais lembrar-te de mim!

segunda-feira, 22 de março de 2010

Crónica de uma morte anunciada - II


«Embora já pertencesse à era da informática, não conseguia fazer upgrades com facilidade.
Certamente que lhe faltavam alguns módulos pois a sua incompatibilidade com o que a rodeava era cada vez maior.
Era de uma simplicidade pouco usual na sua idade mas essa simplicidade advinha da sua forma de ser e estar no mundo.
Não gostava do espampanante nem do sofisticado tendo, contudo, um quê de requinte no seu Ser.
Não se regia pelas muitas regras de etiqueta, que não dominava: por exemplo, não queria saber dos muitos talheres à volta dos pratos ou dos copos de diferentes tamanhos nem para o que se destinavam.
Era-lhe igualmente inútil saber qual a qualidade e a quantidade de vinho a ingerir durante e após a refeição.
Dispensava os empregados pois considerava que eles iriam quebrar a sua privacidade e entrar no seu espaço vital, na sua intimidade.
Tinha uma atitude prática perante a vida e perante a sociedade.
Houve porém quem de mansinho se imiscuísse na sua vida e tivesse simulado gostar de si e da sua forma de ser e de estar. E também de mansinho conquistou o que ainda restava do seu coração a pretexto de gostar dela tal como ela era mas, sobretudo, por amar a sua singularidade.
À medida que o tempo foi passando a proximidade entre ambos foi aumentando e, apesar de, por vezes, ele se mostrar desconcertado com a objectividade dela, afirmava-lhe um amor cada vez maior, desmesurado mesmo.
Reticente, ela abriu-lhe as suas portas, as suas e as de sua casa, passando ele a ser frequentador das mesmas.
Só que havia indícios, sinais... algo que não batia certo.
E, na noite de um dia, aparentemente de felicidade, tudo mudou.
Fora de portas e à socapa, ele mostrou que a tinha roubado e, num ápice, violou-a!
Não havia nada a fazer.
Por entre gritos e dor, ela barafustou, mas era tarde.
A sua simplicidade bronca permitiu a entrada de alguém vil e sem escrúpulos numa existência rotineira e honesta, que era a sua.
A violação tinha doído, dilacerando-lhe todo o seu interior; o roubo tinha-a despojado do que era seu deixando-a completamente desnudada.
E então ela decidiu fazer justiça, com as suas próprias mãos e de forma tão directa, que tudo se resolveria também de forma súbita... da mesma forma súbita com que ela tinha acordado para a realidade.
E matou-o.
Matou-o ali, naquele momento em que descobriu a fraude.
Matou-o dentro de si, tentando fazer com que a memória o acompanhasse, sem dó, cruelmente, sem perdão.
Matou-o e virou-lhe as costas para sempre, fazendo-o de maneira prática e decidida.
Castigo? Justiça? Perdão? Certamente que aconteceram, certamente que acontecerão.
Pela primeira vez ela fez um upgrade bem sucedido.
Ele? Permanece morto. Morto e enterrado na história pessoal daquela mulher.»