Conto os dias, conto as horas
Conto os minutos e os segundos
Que já não consigo mais contar
Eles passam com dificuldade,
Lentos, penosos, devagar
E tento preenchê-los com actos,
Agora vazios e pesados
Pois tudo deixou de fazer sentido.
Não quero este relógio!
Não quero este calendário!
De coração ferido e em padecimento
Invento o que não tem invenção
Tento esquecer o que não tem esquecimento.
Mas continuo a caminhar
Por caminhos já percorridos
Enleio-me nesta minha teia
Velha, doída, conhecida
Mas avanço, mesmo à deriva.
A esperança não a tenho
E vagueio nas palavras que retive
Boas algumas, terríveis outras.
O que se passou, o que aconteceu, o que ficou?
Em alguma parte da composição
Alguém escreveu mal os vocábulos
Alguém errou na forma
Alguém equivocou o conteúdo.
Foste tu? Fui eu?
Fomos nós?
Não quero ser espectadora de mim própria
Mas... terei forças para de novo te inventar?
Para de novo te construir?
Ou apenas terei que te aceitar,
A ti, demónio do meu amar?!
Conto os dias, conto as horas
Conto os minutos e os segundos
E nesta ansiedade de contar
Um qualquer desfecho
Hei-de alcançar...
