sexta-feira, 24 de abril de 2015

Buraco vazio

Praia da Albarquel - Foto de JC
Não aceito
De bom grado e com jeito
Os sentimentos desordenados
Que aparecem no meu peito.

Não os posso controlar
Não os consigo ainda saber
Para podê-los gozar
Ou, no mínimo,
Saber, o que com eles fazer.

Deixam-me confusa
Deixam-me desgostosa
Há sempre em mim a recusa
E o medo da vida
Ainda mais dolorosa.





Continuo a perguntar
O porquê de viver
Continuo a querer saber
Porque ainda aqui estou,
Porque devo continuar,
O que me leva a ficar.

Respostas, não encontro.
Alegria, não tenho.
As amizades não me preenchem.
O deus que eu sigo
Ainda não O sei.
E permaneço vazia
Vazia como um ser
Sem rumo ou lei.

Tudo me levaram.
Tudo se me foi.
Houve coisas que algures se esconderam
Neste rochedo inútil
Em que actualmente
Por defesa me tornei.

Sei que me mentem
E ainda finjo acreditar
Porque muitos receios me assaltam
E em falsidade dizem me amar.

Nunca hei-de saber o que isso é
Porque a mentira
A tudo prevalece
AMOR é palavra inconsistente
É palavra falsa e vã
É sentimento impossível
Neste mundo desonesto e insensível.

Desisto.
Desisto para sempre.
Deixem-me em Paz.
Deixem-me sozinha.
Deixem-me a minha
suposta Beleza pavonear
Sem companheiros de ocasião
Que me querem exibir e usar .

A minha vida morreu.
Eu morri.
Para quê continuar
Com quem comigo
Partilhou o que me aconteceu?

Adeus.
Não gostei de Aqui estar.
Que todos sofram
O meu sofrimento
Que não lhes seja oferecida
A oportunidade de uma segunda vida
E que invejem
O padecimento que sempre escondi
Para então poderem saber
Tudo o que sofri
Enquanto vivi.

Adeus!
Este mundo não me pertence
E eu, aqui sou um Ser em excesso
Procuro apenas encontrar
O lugar de onde vim
E para o qual
De rompante, e, finalmente,
Feliz vou voltar!

JC - Inédito


quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

É possível...

Imagem retirada da net
É possível morrer de saudade
De desânimo, de solidão
É possível morrer de tristeza
De esquecimento, de ingratidão

É possível morrer de loucura, de confusão
De agrura, de desamor
É possível morrer de exaustão
De entrega, de débito de valor

É possível morrer lentamente
Um pouco de tudo isto
Todos os dias que passam
Todos os dias que faltam
Todos os dias que não vieram
Todos os dias que não chegarão

É possível morrer e continuar vivo
E em cada dia que passa, sofrer a dor
De viver, mesmo já tendo morrido
E de continuar a ter todas as outras dores,
Apesar de já todas ter vivido.

JC - Inédito

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Quero ir buscar quem fui onde ficou.
Foto retirada da net
A Criança que fui chora na estrada,
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,

Quero ir buscar quem fui onde ficou.
Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.
Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,
Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.


Fernando Pessoa, 22-9-1933
In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Dá-nos a Tua paz


Dá-nos a Tua paz,
Deus Cristão falso, mas consolador, porque todos
Nascem para a emoção rezada a ti;
Deus anti-científico mas que a nossa mãe ensina;
Deus absurdo da verdade absurda, mas que tem a verdade das lágrimas
Nas horas de fraqueza em que sentimos que passamos
Como o fumo e a nuvem, mas a emoção não o quer,
Como o rasto na terra, mas a alma é sensível...
Dá-nos a Tua paz, ainda que não existisses nunca,
A Tua paz no mundo que julgas Teu,
A Tua paz impossível tão possível à Terra,
À grande mãe pagã, cristã em nós a esta hora
E que deve ser humana em tudo quanto é humano em nós.
Dá-nos a paz como uma brisa saindo
Ou a chuva para a qual há preces nas províncias,
E chove por leis naturais tranquilizadoramente.
Dá-nos a paz, porque por ela siga, e regresse
O nosso espírito cansado ao quarto de arrumações e coser
Onde ao canto está o berço inútil, mas não a mãe que embala,
Onde na cómoda velha está a roupa da infância, despida
Com o poder iludir a vida com o sonho...
Dá-nos a tua paz.
O mundo é incerto e confuso,
O pensamento não chega a parte nenhuma da Terra,
O braço não alcança mais do que a mão pode conter,
O olhar não atravessa os muros da sombra,
O coração não sabe desejar o que deseja
A vida erra constantemente o caminho para a Vida.
Dá-nos, Senhor, a paz, Cristo ou Buda que sejas,
Dá-nos a paz e admite
Nos vales esquecidos dos pastores ignotos
Nos píncaros de gelo dos eremitas perdidos,
Nas ruas transversais dos bairros afastados das cidades,
A paz que é dos que não conhecem e esquecem sem querer.
Materna paz que adormeça a terra,
Dormente à lareira sem filosofias,
Memória dos contos de fadas sem a vida lá fora,
A canção do berço revivida através do menino sem futuro,
O calor, a ama, o menino,
O menino que se vai deitar
E o sentido inútil da vida,
O coveiro antigo das coisas,
A dor sem fundo da terra, dos homens, dos destinos
Do mundo...
Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 25.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Nem pedras nem castelos

Foto retirada da net - Autor desconhecido
Já não preciso de mais pedras
Para construír castelos
Pois construtora e proprietária
De muitos já sou;

Também não quero mais desgostos
Pois uma torre enorme
Já tenho com eles edificada;

De lágrimas de dor
Também não preciso
Porque um rio já corre à minha frente
Com elas nascido
Rio revolto, desgovernado,
Sem margens respeitar
Sem limites querer ter;

De mais desprezo não careço
Pois transparente me tornei
E os castelos edificados
Foram construídos numa ilha
No meio do meu rio...
E ruiram.

De vexames também não
Pois mesmo vexada
Surgem de quando em quando
Flechas que me perfuram
Sendo eu o alvo mais fácil de todos.
Perfurada, perdida, isolada, ferida,
desarmada é fácil ser-se alvejada.

Não preciso de aqui estar.
Não quero cá permanecer.
Não há motivos nem pessoas
Para o merecer

Já me fui... há muito que Eu já não sou
Espero apenas o momento
De este corpo abandonar e,
Finalmente, na eternidade, poder descansar.

Ai, que cansaço!
Ai, que desilusão!


JC - Inédito



segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Bem sei que estou endoidecendo



Foto retirada da net


Bem sei que estou endoidecendo.
Bem sei que falha em mim quem sou.
Sim, mas, enquanto me não rendo,
Quero saber por onde vou.
Ainda que vá para render-me
Ao que o destino me faz ser,
Quero, um momento, aqui deter-me
E descansar a conhecer.
Há grandes lapsos de memória,
Grandes parábolas perdidas,
E muita lenda e muita história
E muitas vidas, muitas vidas.
Tudo isso, agora que me perco
De mim e vou a transviar,
Quero chamar a mim, e cerco
Meu ser de tudo relembrar.
Porque, se vou ser louco, quero
Ser louco com moral e siso.
Vou tanger lira com Nero.
Mas o incêndio não é preciso.
Fernando Pessoa In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim,
 ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006