terça-feira, 27 de agosto de 2013

Triste aniversário





Sinto ainda o último beijo que te dei
E sei que me roubaram à força de junto de ti.

Recordo bem a tua tez macilenta,
Os teus olhos cerrados,
Os teus lábios igualmente fechados,
As tuas mãos escondidas,
O teu corpo inerte.

Ainda assim, queria abraçar-te,
Dizer-te mais mil vezes que te amava,
Que te amo,
Que te amarei para sempre...
Que queria ir junto a ti.

Foi tudo devastador e demasiado rápido!
Subitamente eu tive que te deixar...
Puxaram-me,  esconderam-te, levaram-te.
O sol batia-me no rosto
Mas eram as lágrimas que me queimavam.

Via tudo turvo, mas soube que estavas lá no fundo
Queria atirar-me também...
Ficar contigo, apenas isso.
Contudo, a cobardia não mo permitiu.
Agarrei-me com toda a força à minha mãe
E, em vez de mim, ofereci-te um cravo branco.

Faz hoje dois anos...
Mas, para mim, acabou de acontecer
E a dor que sinto, ainda é a mesma!!


JC - Inédito



quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Partida

Fecha os olhos também
Dá-me a mão e vem comigo
Não foste tu que me trouxeste aqui?
Pois bem, está na hora de irmos as duas
De seguirmos o mesmo caminho
Devagar, sem pressas,
Vamos encontrar o que ambicionamos.

Quando me trouxeste
Eu não era mais do que uma coisa
Pequena, sem importância e sem querer
Hoje, sou grande, tenho querer
Mas continuo sem importância.
Somos as duas quase da mesma idade
E eu já sou maior do que tu
Embora permaneça menor
Pois nunca atingi a tua grandeza.

Cumprimos a nossa missão.
Plantámos as nossas sementes
Colhemos os nossos frutos
Que eles próprios deram frutos
E os seus frutos deram mais frutos.
Agora ... Já cá nada fazemos
Podemos e devemos partir.
Estamos cansadas da nossa existência...
Exaustas!
Vamos ter com quem nos espera
Porque a demora tem sido grande
E a saudade ainda maior.
Vamos partir!

Dá-me a tua mão e acompanha-me
Em mais esta jornada
Como fizeste ao longo de toda a vida
Fá-lo-ás também, rumo ao infinito!
Anda comigo porque te amo!
Estás preparada?
Vamos então, com uma lágrima ao canto do olho
E um último sorriso nos lábios!!

JC -  Inédito
Foto retirada da net



domingo, 28 de julho de 2013

À espera...

Cruzei hoje o céu de lés a lés
E não te encontrei (serias tu uma das nuvens brancas?).
Ao longo de todo este tempo
Ainda não me enviaste um único sinal:
Nem um toque,
Nem um sopro,
Nem uma palavra ou um sussurro,
Nem um suspiro,
Nem uma fragrância,
Nem uma luz,
Nem uma simples imagem...
Partiste para todo o sempre
E não te despediste de mim.
Foste indo, devagar, devagarinho
Até que não voltaste.
Nada!
E eu fiquei sempre, estupidamente,
À tua espera... à espera de um sinal teu
De um sinal que não me queres dar.
Pensava que era especial para ti
Pensava ser a “tua menina”...
Mas enganei-me.
Outra dor que me deste.
Não deixo de te amar por isso.
Quero apenas encontrar-te
Saber onde estás e por onde andas
O que fazes e quem vês, com quem te encontras...
E saber quando posso ir ter contigo...
porque não aguento estas saudades que me consomem
Por dentro e por fora.
O tempo não mitiga a dor: dilata-a!
Porque não te vi eu quando atravessei o céu?!
O que é feito de ti?


JC - Inédito

sábado, 27 de julho de 2013

O Pior Medo é o Medo de Nós Próprios

“O medo é muitas vezes o muro que impede as pessoas de fazerem uma série de coisas. Claro que o medo também pode ser positivo, em certa medida ajuda a que se equilibrem alguns elementos e se tenham certas coisas em consideração, mas na maior parte dos casos é negativo, é algo que nos faz mal. (...) O pior medo é o medo de nós próprios e a pior opressão é a auto-opressão. Antes de se tentar lutar contra qualquer outra coisa, penso que é importante lutarmos contra ela e conquistarmos a liberdade de não termos medo de nós próprios.”

José Luís Peixoto, in 'Diário de Notícias (2003)


quinta-feira, 11 de julho de 2013

Quarto escuro



Permaneço, para além do tempo
E do espaço
Neste quarto escuro e exíguo
De portas para sempre fechadas
De portas seguramente já mortas
De janelas desde sempre ilusórias
De alçapões não encontrados.

Tudo se fechou neste quarto da vida
Sempre que pretendi continuar em frente
Longe de toda a gente
Que não passou de um mero invento.

O ar já não corre
E a cada minuto de tempo que passa
São horas reais intermináveis
Nesta imunda fossa  não cavada
Em direcção à liberdade
Sempre ansiada.

Quem afirmou que ao ser
Fechada uma porta
É aberta uma janela?
Certamente foi alguém
Que ignora a ergonomia
De um imóvel moribundo
Que não sabe o que é viver
A agonia de ainda estar viva.

Não é o fim, certamente
Porque o terminus verdadeiro não chega
Pois tudo se prolonga
Em dolorosa
Delonga.

Agora,
depois,
para sempre,
mesmo para além da morte
Mesmo para além da terrena vida
Continuarão as tempestades do meu deserto
Nele
Quente ou frio
Mas sempre tão incerto
Muito longe do que, simplesmente,
Poderia ser perto
Muito distante da ideia madura, tão pura...
Oh, tão pura!
Tão simples, tão ingénuo
Que no meu coração
Poderia, inocentemente
Viver para sempre.

Permaneço, contra vontade
Neste exíguo quarto escuro
Sem saída
Sem portas
Sem janelas...
                          JC - Inédito

domingo, 30 de junho de 2013

DESdita

Finjo ainda que vivo
Pedaços de uma felicidade que não tenho.
Vem sempre emprestada
Vestida de pedaços de nada
E extingue-se quando
Abro bem os olhos
E constato que não é minha.

Não é felicidade
É dor fingida de alegria
E assim que a verdade se faz dia
É descoberta
A mesma triste realidade.

E os balões de soro
Que antes me alimentavam
Rebentam agora
Sem sentido e extemporaneamente
Causando-me outras feridas
E outras maleitas
Inesperadas e desconhecidas
Outras fomes, agora insatisfeitas.

Roubaram-me quem eu era
Por isso já não sei quem sou
Sei que dói
Sei que a voz mesmo calada
Não acerta
Que o acto mesmo sem ser feito
É incorrecto.

Dói-me o peito
Dói-me a dor
Já não sei o que fazer.
Não tenho para onde ir
Onde me abrigar
A quem me dirigir.
Resta-me a dita,
Tão certa mas tão tardia.
Quero tê-la
Quero vê-la
Hoje, oh, já hoje
Agora, à noite
Antes que a brisa quente
Traga o ar de dia!!!

                JC - Inédito