"Toda a infelicidade dos homens provém da esperança."
Sem pretensões... Apenas para partilhar as palavras que me sufocam e voam demasiado céleres dentro do meu pensamento, reunidas em poemas que contam estórias... ou em crónicas de ninguém, sempre inventadas... por uma maria de luz (sem acordo ortográfico)
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
Morfologia Imperfeita
Brilhas, mais-que-perfeito,
Do que o próprio sol
Mas encerras segredos remotos
Que me ocultas e escurecem
Em viagens que afirmas não querer
Realizar
Há sempre motivos misteriosos
De agente secreto
Que te arrastam e afastam de mim.
Isolas-me, assim.
Confundes-me, também.
Baralhas-me, ainda
Transformando-me em apenas
Mais uma peça
De um imenso dominó.
Angustias-me com a angústia
De quem se sente perdida
De quem se sente embarricada
De quem não compreende
A vida e o mundo...
Surgem também as imprecisões
As vontades e as adversativas
Que me inibem o futuro próximo
Me transportam a um passado recente
Me descoordenam os pensamentos
Me condicionam os sentimentos do presente
Com locuções que tenho que aceitar.
E nesta gramática imperfeita
Em que sou sujeito
Sem grande predicado
Vou esperando
Um dia me transformar
No teu planeta solar
Na tua única dependência
Na tua melhor experiência
E o Verbo do teu sentir
Para sempre poder alterar.
JC - Inédito
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
Embarcação encalhada
Ao longe, continuo a vê-la passar sem nada conseguir fazer. Tento sempre, mas não consigo. A maré não sobe nunca o suficiente para que eu a possa alcançar.
E assim permaneço, através dos tempos do tempo, enquanto tudo me foge, enquanto ela se esvai.
Estou esgotada. Estou exausta desta tentativa constante de conquista de marés favoráveis sem que elas me aconteçam.
Nunca sou o suficiente. Nunca sirvo o bastante. Nunca alcanço o razoável. E nunca saio do sítio, uma e outra vez, por mais marinheiros que apareçam, por mais marés que aconteçam.
E exausta, depois do meu interior, também o meu exterior vai apodrecer com a intempérie.
E, de soslaio, ela acena-me com maldade e ironia, mostrando-me o que nunca poderei ter.
É assim, a vida... cruel!
JC - Inédito
JC - Inédito
sábado, 12 de novembro de 2011
Condições... condicionantes
Não vivemos sozinhos, ainda que possamos nos sentir isolados. Há sempre seres à nossa volta e nascemos numa família que não tivemos oportunidade de escolher. E, sem querer também, vamos condicionando a vida dessas outras pessoas, da mesma forma que elas também condicionam a nossa... para o mal e para o bem.
E montados no alto do nosso imenso pedestal de sabedoria ou de ignorância, a nossa existência, com as nossas atitudes, condicionam a vida dos nossos filhos... porque a nossa também já foi condicionada pelos nossos pais.
É involuntário, a maior parte das vezes. Impensado, até, mas o facto é que acontece. Com a nossa infindável sapiência ou com grande camada de agnosia, cremos ter as atitudes correctas junto de quem amamos, junto dos pais, junto dos filhos... e muitas outras vezes goramos as expectativas... as deles e as nossas.
Assim, nem sempre o resultado final é o melhor ou tão pouco o desejado. Sobram as mágoas, as frustrações, os traumas. Surge também alguma dose de infelicidade ou de revolta, de quando em quando. E questionamo-nos. Reflectimos... mas nada há a fazer pois o passado já acabou, embora tenha sido determinante para o presente fugaz que vivemos e ainda preponderante para o futuro que, breve, se aproxima.
Todos lutamos pelo mesmo, todos procuramos o mesmo. Atribuirmos-lhe nomes diferentes. O objectivo pode até ser diferente, mas o princípio que encerra é, indubitavelmente o mesmo.
E, condicionados e condicionantes, assim vamos prosseguindo numa busca que, muitas vezes é cessada pelo destino antes de termos tido oportunidade de concretizar o que pretendemos.
Este, é, um ciclo ao qual não conseguimos escapar.
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
Loucura
Se for loucura querer fugir do vazio
Então quero ser louca
Mas parece que nesse percurso
Conduzo sempre em contramão
Pois vejo a minha vida esvair-se
Em cada inusitado buraco
Em cada insólita colisão.
Condicionada pelas minhas escolhas
Colho frutos de vida envenenados
Que me contaminam e ferem.
E insisto que a minha existência
Deverá ser mais do que a soma
De todos os erros que cometi
Sem dar resto zero.
Porém as contas que agora faço
Estão longe de estarem certas
E nestas palavras largadas ao vento
Não encontro grande efeito
Não vejo grande alteração
Ainda que, sem querer
Revele parte da minha discrição.
E nela, porque sou fraca, entras tu
Distante, enigmático, eclético
Misterioso e impenetrável, por vezes
Imune e inacessível, outras tantas
E com o teu jeito singular
Fazes-me perguntar:
Onde guardas o teu amor
Onde escondes o teu sentir
Que me causas tanto pesar.
E o vazio continua
Mas a fuga também
Não quero ir em transgressão
Não quero perder mais vida
Porém, vou continuar
Até um caminho encontrar
Até uma resposta obter
Até te conseguir penetrar
Até conseguir
O teu coração amolecer.
Será, então, loucura
Querer fugir do vazio?
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
Epifania
Numa destas noites escuras de insónia
Algures, entre o sono e a vigília
Eis que tive uma visão
E fui visitada no meu humilde templo
Para me falarem da minha ingratidão!
Veio um bando de anjos
Logo seguido de querubins
Que traziam ao seu lado
Muitos outros serafins
Todos eles muito puros e belos
Trazendo mensagens de amor e esperança.
Eis que me abraçam e recebem
Nos seus imensos braços alados
Mas, todos eles, tristes, coitados
Disseram ser entes limitados:
Uns eram cegos, outros surdos
Outros ainda eram mudos mas
Vieram explicar-me as suas funções
Dizer-me que não estou sozinha neste mundo
Mostrar-me que o que tenho
É muito, favorável e profundo
E que eles, mesmo cegos
Mesmo surdos e mesmo mudos
Me guardam e protegem
Me impelem, amparam e dão alento
Para eu atingir os sonhos
Que ainda tenho cá dentro.
E eu, do alto do meu pagode
Fiquei triste e envergonhada
Por ser egoísta e ingrata
Por não dar valor ao que possuo
Por querer muito, ser exigente
Por querer o amor e a perfeição
Por parte de toda a gente!
Baixei os olhos e caí em mim
Acordei do tal sono meio profundo
E, desde logo, alarguei o meu mundo.
Os meus devaneios e querer eu mudei
E agradeci tudo o que já conquistei.
Então, depois desta epifania
Muito pouco vou ansiar
E quieta vou permanecer
Esperando, agora, sem pedir
Que tudo o que desejo
Me possa um dia acontecer!
Já de olhos bem abertos
Despedi-me dos muitos anjos
De todos os querubins e serafins
Que, imediatamente em coro
Lindos cânticos entoaram se despedindo
Mesmo cegos, mesmo surdos e mesmo mudos
Para outro microcosmos foram partindo
As asas batendo e os largos sorrisos abrindo.
Adeus meus anjos, adeus meus serafins!
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