segunda-feira, 5 de setembro de 2011

domingo, 4 de setembro de 2011

Corremos Dentro dos Corpos





"Como o sangue, corremos dentro dos corpos no momento em que abismos os puxam e devoram. Atravessamos cada ramo das árvores interiores que crescem do peito e se estendem pelos braços, pelas pernas, pelos olhares. As raízes agarram-se ao coração e nós cobrimos cada dedo fino dessas raízes que se fecham e apertam e esmagam essa pedra de fogo.
Como sangue, somos lágrimas. Como sangue, existimos dentro dos gestos. As palavras são, tantas vezes, feitas daquilo que significamos. E somos o vento, os caminhos do vento sobre os rostos. O vento dentro da escuridão como o único objecto que pode ser tocado. Debaixo da pele, envolvemos as memórias, as ideias, a esperança e o desencanto."

José Luís Peixoto, in 'Antídoto'

Metades de mim




Metade de mim é esperança, força e vontade
A outra é desilusão, fraqueza e tensão;
Metade de mim é certeza, querer e paixão
A outra é indecisão, falta de ânimo e desalento;
Metade de mim é luz, cor e calor
A outra metade é escuridão, sombra e impotência;
Metade de mim é alegria, alento e amor
A outra é tristeza, pessimismo e dor;
Metade de mim é leveza, movimento, prazer
A outra é chumbo, imobilidade e sofrimento;
Metade de mim é beleza, lascívia e  sensualidade
A outra é fealdade, vergonha e falta de luxuria...
Mas sou Mulher
Dividida e desconhecida
Perdida e esquecida do mundo
Maltratada e  incompreendida.
Estou entre duas realidades
Sempre entre vontades e intenções
Paralisada pelo dever, não cedendo ao querer
Esquecendo o que é amar
Não sabendo o que é ser amada
Apenas para poder continuar.
Metade de mim é céu...
E a outra... este inferno em que vivo!
Tantas metades de mim,
Quantas metades de mim!!

sábado, 3 de setembro de 2011





"Não caminhes à minha frente, porque não conseguiria seguir-te.
 Não caminhes atrás de mim, porque poderia perder-te.
 Não caminhes debaixo de mim, porque poderia pisar-te.
 Não caminhes em cima de mim, porque poderia cansar-me.
 Caminha ao meu lado, porque somos iguais."


Jorge Bucay




sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Os Vários Tipos de Amor




"Parece-me que podemos, com maior razão, distinguir o amor em função da estima que temos pelo que amamos, em comparação com nós mesmos. Pois quando estimamos o objecto do nosso amor menos que a nós mesmos, temos por ele apenas uma simples afeição; quando o estimamos tanto quanto a nós mesmos, a isso se chama amizade; e quando o estimamos mais, a paixão que temos pode ser denominada como devoção. Assim, podemos ter afeição por uma flor, por um pássaro, por um cavalo; porém, a menos que o nosso espírito seja muito desajustado, apenas por seres humanos podemos ter amizade. E de tal maneira eles são objecto dessa paixão que não há homem tão imperfeito que não possamos ter por ele uma amizade muito perfeita, quando pensamos que somos amados por ele e quando temos a alma verdadeiramente nobre e generosa.
Quanto à devoção, o seu principal objecto é sem dúvida a soberana divindade, da qual não poderíamos deixar de ser devotos quando a conhecemos como se deve conhecer. Mas também podemos ter devoção pelo nosso príncipe, pelo nosso país, pela nossa cidade, e mesmo por um homem particular quando o estimamos muito mais que a nós mesmos. Ora, a diferença que há entre esses três tipos de amor manifesta-se principalmente pelos seus efeitos; pois, como em todos nos consideramos juntos e unidos à coisa amada, estamos sempre dispostos a abandonar a menor parte do todo que compomos com ela, para conservar a outra.
Isto leva-nos, na simples afeição, a sempre nos preferirmos ao que amamos; e, na devoção, ao contrário, a preferirmos a coisa amada e não a nós mesmos, de tal forma que não hesitamos em morrer para a conservar. Frequentemente se viram exemplos disso, nos que se expuseram à morte certa para defender o seu príncipe ou a sua cidade, e mesmo às vezes pessoas particulares às quais se tinham devotado por inteiro. "

René Descartes, in 'As Paixões da Alma'

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

De mau, a pior...



Acreditamos que depois de alturas de sofrimento, depois de situações difíceis, depois de vivências duras e complicadas, já mais nada de mau nos pode acontecer na vida e que já nada pode piorar. 
Vã ilusão! 
É claro que a nossa vida pode sempre piorar, que o mau pode ficar péssimo e que o péssimo pode passar a ser algo para o qual ainda não consegui atribuir qualificativo. 
E isto porque, enquanto as coisas vão piorando ainda mantemos alguma esperança, ainda que ténue. Mas a esperança, também ela, vai definhando e vai sendo consumida proporcionalmente à medida do que o mau vai aumentando... e com o uso, extingue-se. 
É então que os dias perdem o brilho, a comida perde o sabor, a música perde o som, a noite fica mais negra e desaparecem definitivamente os possíveis arco-íris com os quais sonhámos.
Tem sido assim, comigo, na minha vida. 
Quando penso que já passei por todas as más experiências a que tinha direito, eis que, afinal, ainda surgem mais umas quantas... e surgem... e surgem!
Tudo me tem sido roubado, pouco a pouco, ano após ano. 
Agora tive uma perda irreparável, irrecuperável, irreconhecível. Aprenderei a lidar com ela, com esta minha nova pobreza, com este sol sem brilho, com estes dias tão frios.
Mas também há outras perdas... De quando em quando finjo acreditar em algo que entra de novo na minha vida e que aceito trazer-lhe alguma riqueza e ânimo. Qual sol de inverno, desaparece em pouco tempo, furtando-me o que a custo tinha edificado dentro de mim. E defrauda-me também uma réstia do pouco alento que me restava. Aqui também perco.
E, neste momento, despojada de tudo, despojada até de mim própria, daquela que um dia, há muito tempo, eu fui... neste momento acredito que nada de pior me pode acontecer, porque o sol já não brilha, porque já não oiço o som da música, porque já não tenho querer ou esperança, porque "tudo" me parece cheio de nada... embora saiba que, um destes dias, tudo pode ir para além do péssimo...
Um destes dias... quem sabe o que vai acontecer...