Depois das dores dilacerantes, depois de um sofrimento físico prolongado, lentamente começou a ficar muito escuro. Agora está tudo negro mas já não sinto dor. Está frio e húmido e quase não oiço nada. Vejo-me obrigado a abandonar este corpo com o qual não me identifico e que me aprisiona. Ele não me obedece, não faz o que lhe peço e permanece inerte como uma rocha. Não sei o que se passou comigo. Não consigo explicar a ninguém o que aconteceu, o porquê deste sono imenso, e limito-me a assistir com tristeza ao desfilar de todos os que me rodeiam.
Saio dele e vejo-me de cima.
E queria poder comunicar, dizer aos médicos que não desistam de mim, que me mantenham as máquinas ligadas por mais uns tempinhos. Queria poder dizer à minha mulher, que sofre em silêncio, que já não tenho dores, que não estou em padecimento. Queria poder dizer aos meus filhos que sejam sempre fortes e que ainda estou aqui. Oiço-os, à vez, sei o quanto eles gostam de mim e não lhes posso dizer que também os amo!
E não sei se consigo voltar para junto deles. Não sei se vou conseguir ganhar mais uma batalha, esta tão complicada e desleal. Estou cansado, muito cansado!
Mas gostava de poder ficar, de os acompanhar por mais algum tempo. Ainda tenho coisas para ensinar, histórias para contar, verdades para revelar, sonhos para viver e muito para aprender.
Queria poder voltar a passear de braço dado com a minha mulher, poder aconselhar os meus filhos, rir com os meus netos e andar de mão dada com o meu bisneto, esse estrangeirinho que mal conheço.
Queria poder voltar a andar pelo campo, regar as minhas laranjeiras, ver crescer as videiras e fazer festas aos meus cães.
Queria ainda concretizar alguns pequenos projectos, conhecer novos lugares, falar com novas gentes, rever os amigos.
Mas nada disto depende de mim.
Está a ser uma noite longa e difícil, que não acaba porque eu não acordo e o meu corpo, apesar de ser meu, não me pertence e está velho e a ceder, mirrando e deteriorando-se a cada dia, a cada hora que passa...
Não depende de mim e não sei se vou conseguir regressar...