sábado, 13 de agosto de 2011

Contrariar as Contrariedades



"Uma das coisas que aprendi é que se deve viver "apesar de". "Apesar de", se deve comer. "Apesar de", se deve amar. "Apesar de", se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio "apesar de" que nos empurra para a frente. Foi o "apesar de" que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora da minha própria vida."

Clarice Lispector

Morte lenta



O meu coração tem uma morte lenta. Vai perdendo as esperanças uma a uma, como folhas secas de outono até que já não lhe reste nenhuma. Nenhuma folha nem nenhuma esperança...

sábado, 6 de agosto de 2011

Crónica impossível



Depois das dores dilacerantes, depois de um sofrimento físico prolongado, lentamente começou a ficar muito escuro. Agora está tudo negro mas já não sinto dor. Está frio e húmido e quase não oiço nada. Vejo-me obrigado a abandonar este corpo com o qual não me identifico e que me aprisiona. Ele não me obedece, não faz o que lhe peço e permanece inerte como uma rocha. Não sei o que se passou comigo. Não consigo explicar a ninguém o que aconteceu, o porquê deste sono imenso, e limito-me a assistir com tristeza ao desfilar de todos os que me rodeiam.
Saio dele e vejo-me de cima.
E queria poder comunicar, dizer aos médicos que não desistam de mim, que me mantenham as máquinas ligadas por mais uns tempinhos. Queria poder dizer à minha mulher, que sofre em silêncio, que já não tenho dores, que não estou em padecimento. Queria poder dizer aos meus filhos que sejam sempre fortes e que ainda estou aqui. Oiço-os, à vez,  sei o quanto eles gostam de mim e não lhes posso dizer que também os amo!
E não sei se consigo voltar para junto deles. Não sei se vou conseguir ganhar mais uma batalha, esta tão complicada e desleal. Estou cansado, muito cansado!
Mas gostava de poder ficar, de os acompanhar por mais algum tempo. Ainda tenho coisas para ensinar, histórias para contar, verdades para revelar, sonhos para viver e muito para aprender.
Queria poder voltar a passear de braço dado com a minha mulher, poder aconselhar os meus filhos, rir com os meus netos e andar de mão dada com o meu bisneto, esse estrangeirinho que mal conheço.
Queria poder voltar a andar pelo campo, regar as minhas laranjeiras, ver crescer as videiras e fazer festas aos meus cães.
Queria ainda concretizar alguns pequenos projectos, conhecer novos lugares, falar com novas gentes, rever os amigos.
Mas nada disto depende de mim.
Está a ser uma noite longa  e difícil, que não acaba porque eu não acordo e o meu corpo, apesar de ser meu, não me pertence e está velho e a ceder, mirrando e deteriorando-se a cada dia, a cada hora que passa...
Não depende de mim e não sei se vou conseguir regressar...

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Édito



Estou zangada,
Estou revoltada
Contigo.
Estás a desistir
A cada hora que passa
Deixas-te ir,
Tudo pela calada.
Perdeste a última luta
Sem lutares
Deste a vitória
Ao adversário
Sem tentares.
Porque o fazes?
Tu não és assim!
Não és o que eu
Sempre conheci!
Não quero
Não aceito
Não deixo acontecer!
Determino
O teu despertar
Nem que seja
Lentamente
Mas, não me deixes
Não te deixes
Esvaecer
Não te deixes levar!
Estou irada
E não me vou
Conformar.
E por ti vou chamar
Até te conseguir
Acordar!
Estou danada!



terça-feira, 2 de agosto de 2011

Navegar




Resgataste-me com sabedoria
Já andava eu à deriva
Num mar revolto e encrespado
Pleno de ondas altas de emoção
Algumas delas provocadas
Pela minha condição.
Devolveste-te à vida
Restituíste-me a esperança
Depois da ameaça de despedida.
Não esperava...
Não sabia...
Mas era só no que pensava
E era tudo o que pretendia.
Estou feliz e confiante
Tudo parece ser possível.
O resgate não foi difícil
E talvez tenhas sentido
Que nós, afinal, fazemos sentido
E que ambos vamos
Com força, sobreviver
Às intempéries que
Ainda podem acontecer.
Tenho as palavras certas
Que me faltam, mesmo assim
Para traduzir
O que me fica por falar
Para traduzir
O que vai dentro de mim.
Quero contigo continuar
Neste mar, ainda furioso
Pois um dia ele há-de mudar
E tê-lo-emos menos impetuoso.
Uma onda de cada vez
À tona vamos nos manter
Navegar e aproveitar
O aconchego do afecto
A embalo do amor
E, navegar, navegar
Num doce flutuar
Até o mar secar.

Sono imenso



Quiseste adormecer
Nesse sono tão profundo
Que não te deixas acordar
Nem voltas para este mundo.
Estou aqui à tua espera
E, com esforço, tento te despertar
Mas tu, fascinado, insistes
E nesse sono te deixas ficar.
Digo o teu nome
Digo o que tu me és
Porém, tu não me ouves
Num nanossegundo
Abres os olhos, mas não me vês
Já não sabes quem sou
Já nada te parece interessar
Talvez, a dormir
Tu acredites tudo ultrapassar.
Estás a ser interesseiro
E só em ti estás a pensar
E eu? Que fazes de mim?
Também me vais abandonar?
Não é justo para nenhum de nós
Teres escolhido
Este meio tão distorcido
E assim, tão longe
Quereres permanecer
Anda! Volta! Regressa!
Sei que nada posso prometer
Mas, uma coisa é certa:
Aconteça o que acontecer
Nunca, mas nunca,
Eu vou te esquecer!