terça-feira, 17 de maio de 2011

Sorrisos

Muitas vezes, muitos dias, são os seus olhares simples que me conseguem encher  um dia mais triste e vazio de afectos.
Olham-me, sorridentes, felizes por me reencontrarem ou dizem-me apenas, de ar cândido e verdadeiro estampado no rosto: "Professora... tu és bonita!".
Derreto-me e entrego-me, numa entrega desinteressada e inocente, também. Nada espero em troca, sabendo no entanto que posso ter tudo ali, nem que seja num momento breve, fugaz até.
Também muitas vezes, quase sempre, direi, depois de os deixar no final de um dia duro, continuo a ouvir dentro de mim os seus gritos, as suas gargalhadas, os seus "não sei" ou até as suas brigas. Não me consigo abstrair das emoções provocadas: "Ainda bem que estás aqui Professora!"
E eles valem a pena. Eles valem sempre a pena... por mim, e por eles!

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Livros


Abro ao acaso e leio vezes sem conta este livro para mim escrito. São estórias sem fim que surgem em folhas em branco, reescritas de cada vez que as decifro.
Quero ignorar que elas me pertencem, dessaber que são minhas e me acontecerão, mas é tudo em vão.
Não tenho como fugir ou como alterar essas crónicas que estão destinadas a me pertencerem.
Sou personagem principal de um enredo enredado nas teias desta vida tão vazia mas imensa, tão intensa, tão amarga!
Aspiro a um conhecimento que não me pertence, a um estado que nunca será meu, a sentimentos que não alcançarei, mas ainda assim procuro nessas folhas alvas o que não pode lá estar.
E leio, porque vivo, porque escrevo eu própria a minha história.
E este livro em branco, pleno das suas narrativas permanecerá imutável, através do tempo dos tempos, para ser lido por quem nele penetrar.

Grande negro




Sem saber que o faria, porque não vi
Avancei ao sinal e,
De repente, acendi à minha volta
Um grande negro, opaco e pesado.
Escureceram o dia e a noite
Que ficaram mais escuros 
Do que eram antes de ti.

Era tudo ilusão pois essa luz 
Ao fundo do túnel da minha vida
Que aparentemente me mostraste
Não passou de um enorme interruptor
Porque tudo de seguida apagaste!

Já nem sei porque insisto
Em querer o que não tenho
E porque me sinto incompleta
Não percebo porque me iludo
Quando sei que todas as ilusões
São apenas erros iguais.

Não me movo
E cerro os olhos com firmeza
Pois não quero mais bater
Neste negro que criei
Pois não me quero magoar
Nesta ilusão em que acreditei.
Não respiro, tão pouco
Também não quero sentir
O bater descompassado 
Do meu coração
Não quero ver sequer
A tristeza do meu olhar
Não posso mais ouvir
O som do desalento
E não quero continuar 
Ligada a este 
Tão grande tormento.

O negro opaco um dia há-de passar
A luz, quiçá, há-de um dia voltar
E eu, debilitada, hei-de poder respirar.
Porém, não voltarei a acreditar
Que uma verdadeira chama poderá me habitar!

E a liberdade do meu desespero
Findará, num dia claro e imenso...

terça-feira, 10 de maio de 2011

Este inferno de amar





"Este inferno de amar – como eu amo!
Quem mo pôs aqui n’alma… quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é vida – e que a vida destrói.
Como é que se veio atear,
Quando – ai se há-de ela apagar?
Eu não sei, não me lembra: o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez… foi um sonho.
Em que a paz tão serena a dormi!
Oh! Que doce era aquele olhar…
Quem me veio, ai de mim! Despertar?
Só me lembra que um dia formoso
Eu passei… Dava o Sol tanta luz!
E os meus olhos que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela? Eu que fiz? Não o sei;
Mas nessa hora a viver comecei…"

Almeida Garrett



terça-feira, 3 de maio de 2011

Espera

Espero...
Espero uma felicidade que não chega
Espero uma certeza que não vem
Espero estar contigo
Espero ser sempre quem sou
Espero a saúde e o sucesso
Espero fruir e não sofrer.
Espero uma outra vida que tarda
Espero que esta ferida não arda
Espero!
Espero não ser mais castigada
Por pecados que não cometi
Espero não ser mais julgada
Por delitos que não pratiquei
Espero.
E nesta espera antiga
Corre o tempo sem me esperar
E passa esta vida
Que se esquece de me levar!
Mas, ainda assim... espero!!!

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Em Busca do Amor

" O meu Destino disse-me a chorar:

“Pela estrada da Vida vai andando,

E, aos que vires passar, interrogando

Acerca do Amor, que hás-de encontrar.”



Fui pela estrada a rir e a cantar,

As contas do meu sonho desfilando ...

E noite e dia, à chuva e ao luar,

Fui sempre caminhando e perguntando ...



Mesmo a um velho eu perguntei: “Velhinho,

Viste o Amor acaso em teu caminho?”

E o velho estremeceu ... olhou ... e riu ...



Agora pela estrada, já cansados,

Voltam todos pra trás desanimados ...

E eu paro a murmurar: “Ninguém o viu! ...”



Florbela Espanca


Mas... o que acontece quando o encontramos... e não o deixamos encontrar-nos??  JC