quinta-feira, 21 de abril de 2011

Os cinco sentidos



"São belas - bem o sei, essas estrelas,

Mil cores - divinais têm essas flores;

Mas eu não tenho, amor, olhos para elas:

Em toda a natureza

Não vejo outra beleza

Senão a ti - a ti!

Divina - ai!, sim, será a voz que afina Saudosa - na ramagem densa, umbrosa,

Será; mas eu do rouxinol que trina

Não oiço a melodia,

Nem sinto outra harmonia

Senão a ti - a ti!

Respira - n’aura que entre as flores gira,

Celeste - incenso de perfume agreste.

Sei... não sinto: minha alma não aspira,

Não percebe, não toma

Senão o doce aroma

Que vem de ti - de ti!

Formosos - são os pomos saborosos,

É um mimo - de néctar o racimo:

E eu tenho fome e sede ...sequiosos,

Famintos meus desejos

Estão... mas é de beijos,

É só de ti - de ti!

Macia - deve a relva luzidia Do leito - ser por certo em que me deito.

Mas quem, ao pé de ti, quem poderia

Sentir outras carícias,

Tocar noutras delícias

Senão em ti - em ti!

A ti! , ai, a ti só os meus sentidos Todos num confundidos,

Sentem, ouvem, respiram;

Em ti, por ti deliram.

Em ti a minha sorte,

A minha vida em ti;

E quando venha a morte,

Será morrer por ti."

Almeida Garrett


sábado, 16 de abril de 2011

Batalhas





Luto,
Esta luta desleal
Desvantajosa e ilegal
Que um dia me obrigaram.

Batalho,
de forma árdua
E sem proveito
batalhando, quantas vezes
Também sem jeito.

Combato,
Contra conceitos instituídos
Contra assuntos definidos
Contra seres erigidos
Sem hipótese de ganhar.

Pelejo sempre,
Em andrajos e sem armas
Sem montada e sem glória
Sem força ou poder.

Brigo sem cessar
Nesta briga
Em que sei
Por melhor que fizer
Sempre ir perder.

Porque a vida se repete
Aparecendo muitas vezes
Mascarada de pessoas novas
Vindas de perto ou de longe
Sendo sempre as mesmas.

Desencanto-me, neste encanto
De coincidências,
De momentos duplicados
Impostos
Vezes sem conta.

E assim, desisto
Nem por isso resignada
Mas abandonando o meu querer.
Nesta ilusão por mim criada
De um dia pensar
Ser possível
Te ter.. e para mim, eu ser!



sexta-feira, 15 de abril de 2011

On ira





Surgiste por entre o nada e coisa nenhuma.
Trazes ainda a vontade e o querer
E dizes... sentir!

Entre o calor deste fogo
Que me queima o intimo
E o querer sentir amor
Entrego-me... sou toda tua,
sem pudor!

Não sei o amanhã, não sei se virá paixão
Mas entre o Desistir e o Arriscar
Estou segura que quero continuar!

Sinto-te em mim, de forma intensa e feroz
Mas não sei se consigo reprimir
Esta paixão que já acendeu entre nós!

Seguro-te, sem te agarrar
Dou-te tudo o que tenho
Sem nada te dar.
E apenas ficarás comigo
Porque, sei, um dia...
Irás me amar!

Demanda




Tenho apenas o que sou
E nesta questa de procurar
Encontro apenas o caminho
Por onde sei que não vou!

Ando em vão, dia após dia
E a vida vai-se esgotar.
Tropeço, caio, ergo-me,
Marcho a coxear.
Depois corro sem parar,
Até, de novo,
Alguém me derrubar.

Ainda não me apetece desistir
Embora, por vezes, queira apenas fugir.
E nesta demanda de fingir
Sou a mesma... não vou mudar!

Dói-me sempre o querer
E a solidão que já vesti.
Passa o tempo,
Foge a vida,
E eu, triste, não vivi!


sábado, 26 de março de 2011

Memória esquecida




Estou a perder tudo o que tinha, tudo o que fui, tudo o que sou. A minha memória brinca comigo como se eu fosse um joguete sem sentido. Atraiçoa-me mais e mais a cada dia que passa para que eu me esqueça de mim, que esqueça como cheguei aqui, que esqueça o que ainda quero da vida.
Consome-me e confunde-me e eu estou a perder o norte.
Do meu passado distante, retenho apenas factos soltos, aparentemente sem importância. As pessoas que conheci estão a perder o nome depois de já terem perdido o rosto, depois de já não saber como as conheci.
Do meu passado recente, tenho apenas lembrança de algumas situações que não se encaixam em nada.
A minha memória é agora uma enorme manta de retalhos, cortada e recortada, plena de buracos que já não posso preencher.
Estou a perder-me no meio dela e não me consigo opor, não consigo contrariá-la e estou impotente para impedir que o esquecimento tome, definitivamente, conta de mim.
E tenho medo, medo de um futuro que me deixe isolada de mim mesma e me impeça de saber de onde vim e como aqui cheguei!
Quero queixar-me, mas não sei a quem, mas não me lembro como o posso fazer!
Estas, são certamente as marcas dolorosas de uma demência precoce. E grito, enquanto ainda sei como o fazer: Socorro... libertem-me de mim!!!

sexta-feira, 11 de março de 2011

A vida... uma empresa





"Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes, mas não esqueço de que a minha vida é a maior empresa do mundo. E que posso evitar que ela vá a falência. Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise. Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história. É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma . É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida. Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um 'não'. É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta. Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo... "

(Fernando Pessoa)