segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Cume da montanha





Está a chegar ao fim o meu tempo
Pois estou a atingir o cume
De uma montanha que escalei
Solitária,inglória e arduamente.
Não posso voltar para trás
E tentar recuperar o tempo
Perdido em viver erradamente
Desperdiçado com coisas supérfluas
Porque estas veredas têm apenas um sentido.

Exausta com as lutas travadas,
As derrotas sofridas,
As intenções falhadas,
As acções, frustradas,
Estou a deixar caídas no meu trilho
Todas as coisas que possuía,
Tudo o que sempre me acompanhou
Nesta caminhada solitária.
Mesmo os sonhos foram tombados,
Quebrados, um a um.

Estou a perder o meu tempo,
O meu querer, os meus objectivos
E agora
A minha única ânsia
É chegar ao topo
E esperar que ela me leve
Depressa e indolor...
Mas seja como for
Certamente doerá menos
Do que esta dor de viver.

Estou, finalmente, a chegar ao fim.










"Perderei a minha utilidade no dia em que abafar a voz da consciência em mim".


Mahatma Gandhi

domingo, 10 de outubro de 2010

Lembro-me agora...





Lembro-me agora que tenho de marcar um
encontro contigo, num sítio em que ambos
nos possamos falar, de facto, sem que nenhuma
das ocorrências da vida venha
interferir no que temos para nos dizer. Muitas
vezes me lembrei de que esse sítio podia
ser, até, um lugar sem nada de especial,
como um canto de café, em frente de um espelho
que poderia servir de pretexto
para reflectir a alma, a impressão da tarde,
o último estertor do dia antes de nos despedirmos,
quando é preciso encontrar uma fórmula que
disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer. É
que o amor nem sempre é uma palavra de uso,
aquela que permite a passagem à comunicação;
mais exacta de dois seres, a não ser que nos fale,
de súbito, o sentido da despedida, e que cada um de nós
leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio
ser, como se uma troca de almas fosse possível
neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e
me peças: «Vem comigo!», e devo dizer-te que muitas
vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde,
isto é, a porta tinha-se fechado até outro
dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então
as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem
sido pensadas. No entanto, ao escrever-te para marcar
um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos
para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que
é também a mais absurda, de um sentimento; e, por
trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia
seguinte, como se o amor, de facto, pudesse mudar as cores
do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos
encontrar, que há-de ser um dia azul, de verão, em que
o vento poderá soprar do norte, como se fosse daí
que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas,
que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo
das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros.

Nuno Júdice, in “Poesia Reunida”

domingo, 3 de outubro de 2010

À morte







Morte, minha Senhora Dona Morte,
Tão bom que deve ser o teu abraço!
Lânguido e doce como um doce laço
E como uma raiz, sereno e forte.
Não há mal que não sare ou não conforte
Tua mão que nos guia passo a passo,
Em ti, dentro de ti, no teu regaço
Não há triste destino nem má sorte.
Dona Morte dos dedos de veludo,
Fecha-me os olhos que já viram tudo!
Prende-me as asas que voaram tanto!
Vim da Moirama, sou filha de rei,
Má fada me encantou e aqui fiquei
À tua espera... quebra-me o encanto!

Poema



Procuro a ternura súbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.

Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
do prado e de um corpo estendido.

Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.

Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama,
não quando apertamos contra o peito
uma flor ávida de orvalho.

Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.

Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre — procuro-te.

Eugénio de Andrade

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Poema ao luar














É à noite que me fazes falta,
Tu, a ti, que eu nunca tive,
Que eu nunca conheci,
Para dançarmos juntos
A dança da noite
E desfrutarmos em conjunto
A Lua, deusa das pérolas invisíveis.

É a ti que eu quero,
Forte e seguro,
Mas frágil e terno,
De asas transparentes
E corpo viril e ágil.

Quero que precises de mim também,
Quero que me deixes amar-te
Mas principalmente
Quero que me ames e protejas
Me vejas como a tua prioridade
Me encantes com o teu olhar sincero
Com os teus gestos meigos
Ou com a tua pálida vaidade.

Quero-te nos meus intermináveis fins-de-semana
Para que estes não sejam tão solitários e opacos.


Quero-te na minha vida,
Não como um estorvo, mas como um cúmplice
Não como um opositor, mas como um amigo
Não como um juiz, mas como um advogado
Não para me enterrares, mas para me puxares do fundo,
Sempre que eu, fraca e sentimental
Me deixe atolar no inevitável lodo cíclico da vida
Ou me embrenhe no abismo rochoso da exclusão.

Quero-te ao meu lado,
Para ouvires as minhas gargalhadas,
Mas também para me limpares as lágrimas,
Me aconchegares a roupa, quando eu tenho frio
Ou me refrescares, quando eu transpiro em demasia.

Quero-te junto a mim, para poderes rir comigo
Das insânias que digo com inocência,
Ou dos meus actos desajeitados
Ou ainda quando me enfeito de colares coloridos

Quero-te por perto,
Para poder ver e partilhar os teus sorrisos, as tuas lágrimas,
Os teus olhos parados e perdidos,
Ou ouvir as tuas palavras sem sentido.

Quero-te próximo de mim,
Para juntos construirmos o que nos resta da vida
Porque com meio século
Ainda se podem iniciar construções.

Quero-te nas noites e dias de Inverno,
E nos dias e noites de Verão,
Antes, durante e depois do solstício.

Sei que não existes, porque não te conheço
Mas eu sonho-te.
E é o meu sonho que te edifica,
Que te dá corpo
E que me dá esperança em tons de violeta
Em cada onda que lambe os meus pés,
A cada sete ondas que rebentam junto de mim.

Procuro-te há anos a fio,
E um dia, sei que te hei-de encontrar
Talvez já não seja aqui, neste mundo
Mas prometo-me que não vou desistir.

Quero-te!!
Sou leviana por te querer?
Arrebatada por te inventar?
Talvez
Mas este Mar que me banha e encanta
Ainda um dia me há-de trazer
Um colar de mil pérolas
Vindas do mar do oriente
E tu, virás nele agarrado
Para me tornares a rainha de todas as fadas.
Quero-te, simplesmente!