terça-feira, 6 de abril de 2010

Espera por mim


Espera por mim.
Deixa-me estar e crescer contigo.
Leva-me ao teu lado, de mão dada, brincando nas estradas da tua vida.
Quero ver-te correr e jogar à bola contigo.
Quero acompanhar-te em cada queda, de cada vez que arranhares os joelhos, de cada vez que rasgares as calças.
Quero rebolar contigo na relva, construir castelos na areia da praia, afogar-me contigo nas ondas da imaginação.
Quero perder-me no brilho dos teus olhos, afogar-me nas tuas lágrimas e abraçar os teus sorrisos.

Guarda-me com amor na tua caixinha e procura-me sempre que quiseres, sempre que te apetecer ou sempre que precisares porque, de qualquer forma, mesmo que não saibas, mesmo que não te lembres, mesmo que não me vejas, mesmo que não te apeteça, eu vou estar contigo a zelar por ti, a dar-te o meu apoio e o meu amor incondicional, assistindo à beleza única do teu crescimento.

Deixa-me rir e chorar contigo, gritar alto as tuas alegrias ou reclamar por causa das tuas tristezas... pelas injustiças do mundo.
Ou deixa-me apenas estar, sem nada fazer, sem nada dizer, sem nada julgar... apenas estar contigo e ver o brilho do teu olhar, ouvir a pureza das tuas gargalhadas, deliciar-me com a suavidade do teu sorriso porque eu... eu existo para isso... porque eu... eu sou apenas a tua "granny".
Espera por mim! Deixa-me estar contigo!

quarta-feira, 24 de março de 2010

Mesmo que não queiras...


Mesmo que não queiras
Vais lembrar-te de mim
Em cada beijo não dado
Em cada carinho não recebido
Em cada gargalhada não ouvida.
Mesmo que não queiras
Vais lembrar-te de mim.

Vais lembrar-te de mim
Em cada lugar que passares
A cada esquina que cruzares
A cada perfume que sentires
A cada som que ouvires.
Mesmo que não queiras
Vais lembrar-te de mim.

Vais lembrar-te de mim
Mesmo depois das provas destruídas
Mesmo depois das cartas rasgadas
mesmo depois das ofertas devolvidas
Vais lembrar-te de mim.

Mesmo que não queiras
Vais lembrar-te de mim
Por cada mentira que disseres
Por cada inverdade que pensares
Por cada traição que fizeres
Vais lembrar-te de mim.

Vais lembrar-te de mim
A cada beijo que roubares
A cada mulher que seduzires
A cada carícia que fizeres.
Mesmo que não queiras
Vais lembrar-te de mim.

E quando o tempo levar para longe
Todas as marcas que o amor deixou
Virá o arrependimento
Porque sem mim, ficou-te o vazio
Cada dia se tornou mais longo e frio.
E mesmo que não queiras
Vais lembrar-te de mim.

Mesmo que não queiras
Vais lembrar-te de mim
Porque eu estive em ti
E esse foi o legado que te deixei
Mesmo que não queiras
Vais lembrar-te de mim.
Vais lembrar-te de mim!

segunda-feira, 22 de março de 2010

Crónica de uma morte anunciada - II


«Embora já pertencesse à era da informática, não conseguia fazer upgrades com facilidade.
Certamente que lhe faltavam alguns módulos pois a sua incompatibilidade com o que a rodeava era cada vez maior.
Era de uma simplicidade pouco usual na sua idade mas essa simplicidade advinha da sua forma de ser e estar no mundo.
Não gostava do espampanante nem do sofisticado tendo, contudo, um quê de requinte no seu Ser.
Não se regia pelas muitas regras de etiqueta, que não dominava: por exemplo, não queria saber dos muitos talheres à volta dos pratos ou dos copos de diferentes tamanhos nem para o que se destinavam.
Era-lhe igualmente inútil saber qual a qualidade e a quantidade de vinho a ingerir durante e após a refeição.
Dispensava os empregados pois considerava que eles iriam quebrar a sua privacidade e entrar no seu espaço vital, na sua intimidade.
Tinha uma atitude prática perante a vida e perante a sociedade.
Houve porém quem de mansinho se imiscuísse na sua vida e tivesse simulado gostar de si e da sua forma de ser e de estar. E também de mansinho conquistou o que ainda restava do seu coração a pretexto de gostar dela tal como ela era mas, sobretudo, por amar a sua singularidade.
À medida que o tempo foi passando a proximidade entre ambos foi aumentando e, apesar de, por vezes, ele se mostrar desconcertado com a objectividade dela, afirmava-lhe um amor cada vez maior, desmesurado mesmo.
Reticente, ela abriu-lhe as suas portas, as suas e as de sua casa, passando ele a ser frequentador das mesmas.
Só que havia indícios, sinais... algo que não batia certo.
E, na noite de um dia, aparentemente de felicidade, tudo mudou.
Fora de portas e à socapa, ele mostrou que a tinha roubado e, num ápice, violou-a!
Não havia nada a fazer.
Por entre gritos e dor, ela barafustou, mas era tarde.
A sua simplicidade bronca permitiu a entrada de alguém vil e sem escrúpulos numa existência rotineira e honesta, que era a sua.
A violação tinha doído, dilacerando-lhe todo o seu interior; o roubo tinha-a despojado do que era seu deixando-a completamente desnudada.
E então ela decidiu fazer justiça, com as suas próprias mãos e de forma tão directa, que tudo se resolveria também de forma súbita... da mesma forma súbita com que ela tinha acordado para a realidade.
E matou-o.
Matou-o ali, naquele momento em que descobriu a fraude.
Matou-o dentro de si, tentando fazer com que a memória o acompanhasse, sem dó, cruelmente, sem perdão.
Matou-o e virou-lhe as costas para sempre, fazendo-o de maneira prática e decidida.
Castigo? Justiça? Perdão? Certamente que aconteceram, certamente que acontecerão.
Pela primeira vez ela fez um upgrade bem sucedido.
Ele? Permanece morto. Morto e enterrado na história pessoal daquela mulher.»

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Final de Verão

Este final de Verão foi diferente de todos os outros da minha vida.
Esperei por ti ansiosamente; sonhei contigo... imaginei-te dentro da minha cabeça... atribui-te um rosto inventado por mim.
Mas tu faltaste na data em que tínhamos marcado o nosso encontro.
Teimaste em aparecer depois, de forma estridente e grandiosa como, aliás, era de prever: o teu pai tinha feito o mesmo comigo... porque não o havias de fazer tu?
E então chorei. Chorei num misto de tristeza e desilusão, frustração e mais tristeza ainda.

Mesmo assim senti-te várias vezes quando, protegido, ainda te escondias de mim. Amei-te em silêncio e à distância, desejei-te e dei-te o meu apoio.

Quando finalmente me anunciaram a tua chegada atrasada e atribulada, voltei a verter lágrimas, com empenho e alegria, mas simultaneamente com a revolta interesseira de quem está longe e em nada pode participar.
Continuei a imaginar o teu pequeno rosto, o teu cheiro, a tua pele macia, suave e rosada, os teus cabelos finos... o teu choro inocente.
Virei com afinco as folhas dos dias no calendário, mas eles insistiram em passar lentos.

Assim que a razão me permitiu e o coração deixou, voei para junto de ti para ter o prazer de te sentir, de te tocar, de te agarrar e amar em presença, mesmo que fechando os olhos em êxtase para te saborear!
Voltei a marejar os meus olhos, de forma incontrolada e imberbe, assaltada pela alegria. E embora já te conhecesse de imagens, ultrapassaste grandemente as fronteiras da criação da minha imaginação e, tantos anos depois, senti-me mãe de novo como pela primeira vez: era como se revisse e revivesse o meu próprio menino.

O amor que sinto por ambos??? Indescritível, profundo, singular, incomparável, indizível, já que as palavras existentes não chegam para o fazer!
Apenas o consigo comparar ao brilho do Céu azul, ao calor do Sol, ao aroma da Terra, à frescura do Mar, ao precioso Ar que respiro.
Mas continuamos longe, fisicamente separados por imensos pedaços de terra e outras tantas gotas de mar... com todo o amor que nos liga.

Este final de Verão foi diferente de todos os outros da minha vida e permanecerá inolvidável e indelével para sempre! E isto é felicidade.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Crónica de uma morte anunciada


Qual Viúva Negra aproximaste-te de mim
Cortejaste-me com avidez e perícia
Não queria que tivesse sido assim
Vejo que o fizeste com malícia.

Com ela aprendeste a amar
De forma breve mas intensa
Contudo, apenas me conseguiste magoar
Deixando para sempre uma marca imensa.

Foi desde cedo uma morte anunciada
E aquele teu último beijo
Soube a fel, a sangue e a dor violenta

O meu coração vai paralisar, mas de forma lenta
Formalizando esse teu ensejo
Deixando de ser tudo e passando a ser nada.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Animais domésticos


A Desilusão é um animal doméstico que vive diariamente nas nossas casas e partilha a nossa vida.
Muitas vezes nasce de geração espontânea e aloja-se facilmente onde encontra uma porta deixada aberta pelo cansaço da luta, pelo desânimo da vida, pela exaustão do ser humano.
Outras vezes é por ele inconscientemente adoptada sendo actualmente o processo de adopção extremamente desburocratizado, podendo o mesmo acontecer em qualquer condição social.
A Desilusão é um animal doméstico que cresce nos nossos lares e nos nossos seres, tomando no entanto e muitas vezes, grandes proporções.
Se não estivermos atentos a Desilusão tende a consumir as pessoas sobretudo quando as expectativas das mesmas relativamente à vida e aos relacionamentos são demasiado elevadas.
A Desilusão, um animal doméstico, alimenta-se essencialmente de pequenos actos falhados, de acontecimentos diários que vão contra o que se espera, ambiciona, deseja.
A Desilusão, esse animal doméstico, também tem alguns parentes ocultos, nomeadamente o desânimo, o medo, a revolta, a tristeza e muitas vezes a solidão.
A Desilusão, esse tal animal doméstico, é também um fruto desta sociedade globalizada, em desconstrução, em desmoronamento.
Para extinguir este animal doméstico tão nocivo à saúde do Homem e que tende a voltar ao seu estado selvagem são aceites sugestões de intervenção, tais como: peditórios, manifestações, armas químicas, revoltas individuais, atitudes de insubmissão e muitas outras...
A Desilusão é um animal doméstico.