terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Animais domésticos


A Desilusão é um animal doméstico que vive diariamente nas nossas casas e partilha a nossa vida.
Muitas vezes nasce de geração espontânea e aloja-se facilmente onde encontra uma porta deixada aberta pelo cansaço da luta, pelo desânimo da vida, pela exaustão do ser humano.
Outras vezes é por ele inconscientemente adoptada sendo actualmente o processo de adopção extremamente desburocratizado, podendo o mesmo acontecer em qualquer condição social.
A Desilusão é um animal doméstico que cresce nos nossos lares e nos nossos seres, tomando no entanto e muitas vezes, grandes proporções.
Se não estivermos atentos a Desilusão tende a consumir as pessoas sobretudo quando as expectativas das mesmas relativamente à vida e aos relacionamentos são demasiado elevadas.
A Desilusão, um animal doméstico, alimenta-se essencialmente de pequenos actos falhados, de acontecimentos diários que vão contra o que se espera, ambiciona, deseja.
A Desilusão, esse animal doméstico, também tem alguns parentes ocultos, nomeadamente o desânimo, o medo, a revolta, a tristeza e muitas vezes a solidão.
A Desilusão, esse tal animal doméstico, é também um fruto desta sociedade globalizada, em desconstrução, em desmoronamento.
Para extinguir este animal doméstico tão nocivo à saúde do Homem e que tende a voltar ao seu estado selvagem são aceites sugestões de intervenção, tais como: peditórios, manifestações, armas químicas, revoltas individuais, atitudes de insubmissão e muitas outras...
A Desilusão é um animal doméstico.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Acessórios


Tenho uma pulseira colorida
Feita de cores de esperança
Em tempos foi muito querida
Agora não passa de uma lembrança.

Tenho uma pulseira de cores
Atada com nós de desejos
Agora apenas me lembra dores
E traduz todos os meus ensejos.

Tenho uma pulseira de linha
Plena de vontades e promessas
Gasta, rasgada, partida, mas minha.

Tenho uma pulseira de luto
Que se vai perder no tempo
Sem me ter dado o seu fruto...

domingo, 24 de janeiro de 2010

Hoje


Hoje quero que me esqueças
Quero seguir em frente
para longe, mas sem pressas
Saber que não foste nem és diferente
Não acreditar mais nas tuas promessas
pois és igual a toda a gente.

Hoje, quero fingir que não te conheci
Que o meu coração não bateu por ti
E dizer-te de novo que o amor é uma quimera
Que não passa de uma léria
E tu não o tomas como coisa séria.

Hoje quero dizer-te que és cobarde
Porque finges o que não és e não sentes
Vou lembrar-te que ser sincero é virtude
Que mentir é arte de dementes
Nada que seja faculdade,
E que a honestidade não nasce de sementes.

Hoje, relembro que estou sozinha
Que a vida que inventaste não é minha
Que a luta continua e eu não me entrego
Que desisto, mas não cedo
Que a minha vontade é maior que o medo
E que a idade esconde um segredo.

Hoje vou esperar que o tempo passe
vestir-me de luto e esconder
A tristeza que me deste
e o sentimento
que não pode aparecer.

Hoje não quero ter pena de mim
Apenas lamentar seres assim
Dar-te asas e toda a liberdade
Para saberes que este é o fim.

Hoje...

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Amanhã


Amanhã

Amanhã vou encontrar-me contigo
Soltar o cabelo e vestir o meu melhor vestido
E numa conversa não dita
Dizer-te baixinho ao ouvido
Que o tempo não pára
Que sou aquela maldita
Que não aceita este destino
Porque com dor nada sara.

Amanhã vou encontrar-me contigo
De olhos abertos e sorriso contido
E num gesto não feito
Quero acariciar-te o coração
Quero afagar-te o ego com a razão
E esperar que tudo o que digo
Seja por ti aceite e retido
Para jamais te dizer NÃO!

Amanhã vou encontrar-me contigo
E num jantar não realizado
Com velas e incenso
Celebrar o aniversário não alcançado...

E num espasmo de espanto
Olhar para ti e saber
Que o sentimento é forte
E vence tudo...
Até a própria morte.

Amanhã, vou encontrar-me contigo.

sábado, 26 de setembro de 2009

Vazio


De quando em quando sinto-me vazia.
É cíclico e, ao que parece, inevitável.

Esvaziam-me por dentro, deixam-me oca e incapaz do que quer que seja; isto até recuperar, até me encher, até me regenerar... e esperar que volte a acontecer.

A única coisa que consigo sentir é o desconforto de ser como sou, a múltipla inutilidade de ser quem sou e a tristeza de ter eu própria que enfrentar as consequências da minha frontalidade.

Aliado ao meu esvaziamento caminha sempre um sentimento de impotência, de incompreensão e de desfazamento relativamente à realidade que me circunda.

E nessas alturas... nestas alturas, nem as palavras nem a partilha me confortam ou alegram.
Mas sei que sou como as árvores, que tenho as minhas raízes fortes, que as minhas folhas caem mas que um outro dia elas voltarão a crescer e a ficar verdes pois, apesar de tudo, não vou permitir que me derrubem!
Afinal... as árvores morrem de pé!!!

sábado, 5 de setembro de 2009

Ha um tempo para tudo

"Tudo tem a sua ocasião própria, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.

Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;

tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar;

tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar;

tempo de espalhar pedras, e tempo de juntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de abster-se de abraçar;

tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de deitar fora;

tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar;

tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz."

... mas com todos estes "tempos"... muitas vezes nem sei onde me colocar e sinto o meu "relogio" completamente avariado e a querer contrariar o proprio Tempo.