segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Presunção


Presumi tantas coisas e tantas vezes já ao longo desta minha extensa vida! Mas enganei-me em quase todas essas presunções ...

Presumi que poderia ser o mundo de alguém enquanto muitas vezes apenas ocupava uma pequena parte desimportante do seu mundo;

Presumi que a minha presença, companhia, dedicação seriam suficientes e de qualidade para que não houvesse necessidade de procurarem mais ninguém, quando na verdade em tudo fui sendo considerada paupérrima;

Presumi ser a única, a que está em primeiro lugar, a última... quando sempre fui considerada mais uma, a outra, mais outra...

Presumi, uma vez e outra que as estórias não se iriam repetir, quando elas têm tendência a passar-se repetidas vezes e a multiplicar-se de forma mórbida...

Presumi que um qualquer dia ia encontrar a felicidade, uma felicidade contínua e não apenas fragmentada em pequenas peças soltas de longos dias soltos;

Presumi sempre tanto e tantas vezes, mas o povo é sábio e ele próprio afirma através de um saber feito de experiência: "Presunção e água benta, cada um toma a que quer!"

O mais sensato será nada presumir, nada valorizar e deixar a vida correr ao sabor dos acontecimentos. Não quero água benta e não vou voltar a presunir.

domingo, 2 de novembro de 2008

Aquecimento global


Este mundo que eu vejo não é o mundo que eu penso, que eu quero, que deveria existir.

Olho primeiro para o meu umbigo lembrando-me de quando em quando, que o meu umbigo

só o é porque existem muitos outros. No entanto, em primeira instância e mesmo sem querer, o meu mundo não é "O mundo"; o meu mundo gira à volta dos que eu amo, de quem eu preciso e por quem me preocupo.

Não seremos todos egocêntricos? Ainda que pensemos no aquecimento globlal, na desflorestação da Amazónia, na crise financeira mundial, na paz entre os povos ou na fome no mundo, não pensaremos em tudo isso em função de quem somos, sentimos e ambicionamos?

Sim, tenho um grande umbigo... mas tão grande que nele cabem as injustiças sociais, a desigualdade, a luta de classes ou a preservação da natureza.

Sim, tenho um grande umbigo mas... quem não o tem???

Flash


Massaja o meu ego.

Acarinha, mesmo que timidamente, o meu ser em gestos subtis, quase impassíveis.
Dá-me o que me pertence, o que é meu por direito, o que é meu por herança, o que é meu por conquista e mérito próprio.
Valoriza-me.
Diz-me que estou viva, que sou importante, ainda que seja apenas aqui e agora e apenas para ti.
Pára o mundo, o tempo, o olhar, a respiração!
Pára tudo e contempla-me!
Pára tudo e diz que eu existo, que sou tua, que me mereço e que te mereço.
Pára tudo mas não te páres a ti próprio.
Continua.
Continua trilhando o teu caminho, caminhando o teu horizonte, planificando de forma incerta o que pretendes, hoje e sempre.
Pára mas não me esqueças nem me ignores, não me rejeites nem me odeies, não me temas nem me magoes...
Massaja o meu ego...
Trata-me com carinho, de mansinho como se fosse a tua gata, como se miasse miados inaudíveis, como se ronronasse prazeres contidos, como se me enroscasse infinitamente em ti...
Esta sou eu.
Adulta no tempo mas criança no sentir e no agir, forte por fora mas frágil por dentro, fria no parecer mas quente no querer...
Expectante vou avançando em silêncio, sem nada revelar.
Sou ser em crescimento e em mudança mas sempre e para sempre fiel a um único caminho e sempre com o mesmo objectivo: A felicidade que mora num castelo de ameias de vidro.

Crónicas


Lambendo a areia fina, as ondas vão-se e vêm-se em movimentos lânguidos e ritmados de final de tarde.

Fecho os olhos e ouço-as como se ainda as visse, como se as sentisse nos meus pés de musa desperdiçada.

O vento sopra de mansinho, timido e sereno, enquanto o mundo se movimenta, as pessoas respiram sentires e o sol acaba de brilhar.

E eu fico... queda, muda, quase impassível nesta esplanada da vida, enquanto tento esquecer o bulício de loucura do dia-a-dia.

E as vagas tímidas continuam a lamber a beira-mar... e o homem das castanhas faz o seu pregão.

Palavras




Alguém sabe?


Alguém compreende?

Alguém sabe o que é querer poder traduzir cada olhar em palavras, cada riso em frases, cada gesto em texto?

É uma necessidade imensa, infinita, infindável, inesgotável... dolorosa por vezes porque não concretizada.

Quero.

Quero traduzir aqui e agora cada batimento do meu coração, cada esgar do meu olhar, cada gesto que me é transmitido, cada rosto, cada olhar...

E vou escrever.

Vou traduzir, reduzir, resumir tudo isto a um enorme texto poético.
Vou escrever, sempre à mesma cadência com que respiro, ao mesmo ritmo de cada batida do meu coração, compassadamente e sem arritmias.
Vou escrever... sempre... mesmo quando mo impedirem de o fazer!!!

Libertação


Vou libertar-me!!

Vou deixar-me invadir, docemente, pelo castiço e soltar toda a doidice que existe dentro do meu Ser.

Vou abrir as portas à loucura, libertar o amor, soltar as contenções de anos que me tolhem, amarram, agrilhoam...

Quero poder ser eu! Eu! Eu em todas as dimensões, com todas as loucuras, manifestando-me sem ser julgada, sem ser apontada, marcada...

Libertar as palavras, os risos, as gargalhadas, os actos...

Deixar os cabelos desgrenharem-se ao vento, rebolar na areia molhada, rolar encosta abaixo até à baía...

Uma baía de mil recortes, de mil odores, de mil sabores, de mil cores.

Inventar um novo tempo e um novo lugar e, a cada sopro, respirar liberdade e amor!

Ai sim, sim! Vou libertar-me!